O medo da febre

Olá!

Tudo bem com vocês?

Hoje vou falar sobre um tema que deixa todos os pais de cabelo em pé: a febre nos pequenos.

  1. O que é febre?

A febre é uma reação do nosso corpo a uma agressão que pode ser física, química ou biológica.

Quando estamos com febre, o aumento da temperatura corpórea faz com a nossa resposta imune seja aumentada, acelerando as reações enzimáticas e, por fim, as nossas defesas.

Gosto de fazer um paralelo a um acelerador de um carro. Quanto mais a gente pisa no pedal do acelerador, mais o motor responde e mais velocidade o carro adquire.

No entanto, existe um ponto ótimo, que se ultrapassado, o carro não adquirirá mais velocidade e só trará mais desgaste ao motor, aumentando seu consumo e , veja só, a sua temperatura por conseguinte.

2. A partir de que valor eu posso considerar que meu filho está com febre?

Primeiro é importante pontuar que o corpo sofre alterações de temperatura ao longo do dia.

Na madrugada e pela manhã, a temperatura corpórea é menor, podendo variar cerca de até 1ºC em relação ao final da tarde.

A atividade física, o uso de muitas roupas e a pouca ventilação no ambiente também pode influenciar neste valores.

A temperatura axilar dita normal varia dos 36,5ºC até 37,2ºC.

Consideramos febre, portanto, a temperatura axilar maior que 37,8ºC ou a temperatura retal acima de 38ºC.

3. Posso considerar febre só medindo a temperatura com as mãos?

Dois estudos ( Bancoe Veltri e Eyzaguirre et al.) demonstraram que SIM, as mães quando mediam a temperatura de seus filhos com as mãos diagnosticavam a febre precisamente.

Entretanto, é importante aferir e documentar os picos febris dos pequenos, com o uso do termômetro, para ajudar na investigação de um possível quadro infeccioso pelo médico.

4. E os termômetros de infravermelho? Eles são confiáveis?

Como dito acima, cada parte do corpo possui um temperatura considerada “normal”.

A temperatura da boca e do tímpano são aproximadamente 0,5ºC mais elevadas do que a axilar. Esta por sua vez, é chega a ter 0,8 a 1,0ºC de diferença da temperatura retal.

Então todo cuidado é pouco com os novos dispositivos.

Na dúvida meça mais de uma vez, ou melhor ainda, recorra ao bom e velho termômetro axilar.

5. Acho que estou entendendo!!! Então, se meu filho apresentar temperatura acima de 37,8ºC, isto significa que ele está com febre e então eu devo medicá-lo o quanto antes?

A resposta é um categórico NÃO!

Vamos nos lembrar que a febre é um mecanismo do corpo para ajudar na nossa defesa.

Desta forma não existe um número mágico para o uso do anti-térmico.

Antes disso, você pode desagasalhá-lo, ofertar líquidos (leite materno, água, chás e sucos), levá-lo para um ambiente mais arejado, dar um banho morno nele e voltar a medir a temperatura após 30 minutos.

Muitas vezes, apenas isto já ajuda.

Além do que, se ele estiver com 37,8ºC e bem, ativo, brincando, não há motivo para preocupação.

Devemos medicar apenas se ele apresentar febre e algum desconforto associado.

6. Mas se ele ficar com febre alta, não corre o risco de convulsionar?

Neste ponto, existe um mantra que sempre repito: “convulsiona quem pode, não quem quer”.

Vou explicar!

A Convulsão Febril acontece em crianças com predisposição genética e dos 6 meses aos 5 anos de idade.

Geralmente existe uma história positiva de pais ou de irmãos com convulsão febril também.

E, mais importante do que a temperatura máxima atingida, é a velocidade de ascensão da temperatura.

Sendo assim, existem crianças com quase 40 graus de febre e que não convulsionam e aquelas que com 38ºC apresentam um episódio convulsivo devido à ascensão rápida da temperatura- não nos esqueçamos da predisposição genética.

7. Tá certo, doutor. Mas então após eu controlar a febre, devo ir direto para o Pronto-Socorro não é mesmo?

Depende!

Em crianças com mais de 3 meses é sempre razoável, aguardar por até 72 horas do primeiro pico febril para uma avaliação médica. Isso é claro, caso o quadro não seja acompanhado de alteração do estado geral, irritabilidade, sonolência, falta de apetite grave, cansaço..

É sempre importante pontuar que durante o episódio febril, a criança costuma ficar abatida, com a respiração mais rápida, com os batimentos do coração acelerados e que a melhora após o uso de anti-térmico é um bom sinal.

Como muitas vezes a febre está relacionada a um episódio infeccioso, é NORMAL a redução do apetite.

Muitas crianças aceitam apenas o leite materno ou comidas mais pastosas e em pouca quantidade; e está tudo bem. Vamos respeitar essa condição! Nós mesmos não nos alimentamos muito quando estamos doentes e isso não é diferente com a criança.

Entre 20-30% das consultas em pediatria nos Pronto-Socorros são por queixas relacionadas à febre. No entanto, se a criança não possui nenhum sinal de gravidade, é maior de 3 meses (com o calendário vacinal atualizado) e está apresentando febre há menos de 3 dias é possível aguardar em casa!

8. Mas por que você diz que se meu filho tem mais de 3 meses e só está com febre eu devo aguardar em casa e não ser avaliado por um médico prontamente?

Geralmente grande parte das doenças virais cursam com febre por 3 dias. Neste intervalo de tempo, os picos febris tendem a se afastar e a amenizar, o que indica que o corpo está dando conta da doença.

Além disso, antes de 3 dias, muitas vezes a criança não apresenta outros sintomas e no exame físico médico e até laboratorial não é possível identificar o motivo da febre.

Obviamente que existem exceções, doenças virais como o Exantema Súbito (Roséola), que cursam com febre alta e por mais tempo…

No entanto, insisto que se seu filho estiver bem, com febre e mais nenhum sinal de gravidade, que você aguarde cerca de 3 dias medicando-o em casa. Conduta que já era orientada por todo pediatra, mas que com a Pandemia atual se intensificou.

Por outro lado, se o seu filho for menor de 3 meses ou se apresentar algum sinal de gravidade leve-o prontamente para o seu pediatra.

Existem protocolos mundiais para a investigação da doença febril e, em crianças menores (menores de 3 meses) e/ou com sintomas de gravidade, o médico deverá ser mais incisivo na investigação nestes casos.

Já, as crianças maiores de 3 meses possuem uma imunidade maior e, inclusive, receberam vacinas contra grande parte das bactérias que podem causar doenças invasivas graves.

Por fim, vou parafrasear as orientações do Dr. Jayme Murahovschi, o Decálogo da criança febril:

  1. Se a criança está com febre e bem, há uma grande chance de se tratar de uma infecção viral (cerca de 90%). A cada nova infecção a criança cria imunidade (anticorpos) e é por isso que quanto mais velha a criança, menos episódios febris. O corpo vai se especializando com o tempo e se tornando cada vez mais eficaz no combate às infecções. Caso seu filho persista com febre, há uma chance de ser uma infecção bacterina não grave (otite, amigdalite) que se resolverá com o antibiótico adequado após 48-72h.

2. Utilize roupas leves, ambiente ventilado. Evite exposição solar exagerada e deixa a criança o “mais livre possível”.

3. Ofereça líquidos com frequência.

4. É normal a redução do apetite num episódio infeccioso. Seja mais tolerante se seu filho não quiser comer tanto. Tente ofertar aquilo que o agrada mais, evitando as guloseimas.

5. A febre é um mecanismo de defesa. Tenha tranquilidade.

6. Dessa forma pondere o uso do antitérmico. Não é necessário ficar medicando de horário, exceto se seu filho apresentar sintomas associados à febre. Se ele estiver bem e brincando, tente as medidas não farmacológicas.

7. É importante aferir a febre e os picos febris. Mas não é necessário fazer essa mensuração constantemente, logo após a tomada do antitérmico, por exemplo.

8. Opte por aquela medicação que a criança tolera melhor. Evite hipermedicar e associar vários antitérmicos ao mesmo tempo. O intervalo de ação deles é de 4-6h e dos anti-inflamatórios de até 8-12h, tendo início de ação cerca de 1h após a ingesta.

9. Banho e compressas são aceitáveis, quando isso for do agrado da criança e não trouxer transtornos para a família. Sempre mornos, nunca frios.

10. Observe os sinais de alerta: febre acima de 39,4 ºC com tremores de frio, abatimento acentuado ou forte indisposição (sonolência e irritabilidade, choro inconsolável ou choramingas, gemência) que não melhoram após o efeito da dose de antitérmico; aparecimento de sintomas diferentes; febre que ultrapassa três dias completos. A consulta médica nestes casos é insubstituível.

Bem, por hoje é só.

Nos vemos em breve. Até lá!

Dr Vinícius F. Z. Gonçalves- Pediatra e Neonatologista

CLÍNICA GONÇALVES- Deixe a nossa família cuidar da sua.

Fontes:

Febre: Cuidado com a Febrefobia– Sociedade Brasileira de Pediatria- link: https://www.sbp.com.br/especiais/pediatria-para-familias/cuidados-com-a-saude/febre-cuidado-com-a-febrefobia

A criança com febre no consultório– J. Pediatr. (Rio J.) vol.79  suppl.1 Porto Alegre May/June 2003- Link: https://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0021-75572003000700007

2 comentários sobre “O medo da febre

Deixe uma resposta para clinicagoncalves Cancelar resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s